Darlete Cardoso, Jornalista No último dia 17 de junho, profissionais, estudantes, bem como a sociedade brasileira foram surpreendidos com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), por 8 votos a 1, em desregulamentar a profissão de jornalismo. Ou seja, o diploma, a partir daquele momento, não seria obrigatório para o exercício da profissão. A posição tomada abriu uma discussão em torno do assunto e, é claro, causou a indignação de muitos. Segundo o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo, a decisão do STF representou um "prejuízo imenso e histórico".
O Vestibular também sentiu a necessidade de trazer maiores informações sobre o assunto e conversou com a coordenadora do curso de Comunicação Social da Universidade do Sul Catarinense (Unisul), campus Tubarão/SC, Darlete Cardoso, que expôs a importância do diploma para a qualidade do jornalismo, além de trazer informações sobre o curso, mercado de trabalho e áreas de atuação.
Você considera o diploma essencial para o exercício da profissão? Considero sim. Porque um engenheiro trabalha com engenharia, um economista com economia, e assim por diante. Evidentemente ter um diploma, em qualquer área, não garante que a pessoa seja um bom profissional. Por isso, não gosto de falar em diploma, mas em formação em jornalismo. O jornalista que fez um bom curso, que aproveitou o que o curso oferece tem grandes chances de carreira bem sucedida.
Com a não obrigatoriedade do diploma, como os veículos de comunicação podem se posicionar? Acho que isso eles é quem podem dizer, mas penso que os veículos que primam pela informação de qualidade, pelo profissionalismo e credibilidade vão continuar contratando bons jornalistas para trabalhar com a notícia.
Por que tal posição foi tomada pelo STF? Penso que, em parte, pela pressão dos grandes grupos de comunicação do país que sempre demonstraram interesse de que a profissão fosse desregulamentada para que em algumas áreas outros profissionais pudessem atuar, e em parte, pelo desconhecimento da atividade e da responsabilidade do exercício da profissão de jornalista.
Com a desregulamentação da profissão de jornalismo, isso pode ocorrer com outras profissões? Todos sabem que abre um precedente importante para que isso aconteça em outras áreas, como a das ciências sociais aplicadas, por exemplo.
A decisão do STF vem prejudicando os cursos de Jornalismo? Ainda não se percebe prejuízo. A repercussão da decisão deixou os alunos um pouco desanimados, evidentemente, e de certa forma revoltados com a decisão, mas nenhum aluno deixou o curso por este motivo. Até porque, independentemente da exigência ou não do diploma, a formação profissional jamais deixará de ser importante para o exercício da profissão de jornalista ou de qualquer outra.
Podemos esperar alguma reviravolta nesta decisão ou é improvável? É difícil dizer. Movimentos encabeçados pela Fenaj e Sindicatos dos Jornalistas estão sendo feitos no sentido de sensibilizar e conscientizar autoridades e parlamentares para a importância da regulamentação da profissão e esperamos que tenham resultados positivos. No entanto, temos de trabalhar com o que temos hoje, e hoje a profissão está desregulamentada. Mas ainda não sentimos mudanças no mercado de trabalho, como já mencionado.
A quem pode interessar a desregulamentação da atividade profissional de jornalismo? Isso de certa forma prejudica a sociedade? Penso que interessa aos grandes grupos de comunicação e àqueles veículos ou pessoas que não se preocupam com a qualidade da informação, mas com a questão econômica e de conquista de poder que a imprensa, de certa forma, traz. Penso que prejudica nesse sentido a qualidade da informação, que deve servir ao interesse público e não de setores específicos. A sociedade, para se proteger, deve ser mais crítica, se posicionar e cobrar mais profissionalismo dos veículos de comunicação.
Muito se fala em diploma x liberdade de expressão. Você acredita que a exigência do diploma se torna um obstáculo à livre expressão? Este é um tema bastante complexo e oportuniza um bom debate e reflexão. Mas vamos tentar sintetizar a discussão. Sinceramente, penso que não é o diploma ou a regulamentação da profissão que limitarão a liberdade de expressão do profissional de jornalismo ou mesmo da sociedade de uma forma geral. De um lado, a sociedade só pode conquistar a livre expressão quando se posiciona em relação aos seus direitos à informação, e ainda na medida em que desenvolva mecanismos críticos em relação à informação que recebe. De outro lado, o profissional jornalista deve estar em luta constante entre a responsabilidade social na transmissão da informação confiável e veraz e a ideologia da indústria da informação. De seu lado, os veículos têm de zelar e conquistar a cada dia a credibilidade para que permaneça no mercado. São desafios que todos temos de superar para que a imprensa cumpra seu papel na transformação social, que é sua essência. Se todos cumprirem seu papel, certamente estaremos mais perto da liberdade de expressão, com ou sem diploma.
O que o futuro acadêmico de jornalismo pode esperar do curso? Pode buscar uma boa formação profissional para que possa se sobressair no mercado de trabalho, que é competitivo e aproveita os melhores, os mais talentosos, os que detêm mais conhecimento e sabem como aplicá-lo na sua atividade. O curso superior hoje não foca apenas na especificidade técnica de uma determinada área de atuação. Busca a formação integral, para o trabalho e para vida. No curso de jornalismo é assim, através dos conteúdos de formação humanística.
Como está o mercado de trabalho? Em que áreas da comunicação o jornalista pode trabalhar? O mercado está sempre aberto para bons profissionais, que é bastante diversificado. O jornalista pode atuar em diversas áreas, como repórter e editor de jornais e revistas, diagramador ou repórter fotográfico, em emissoras de rádio e de televisão, em produtoras de áudio e vídeo. Atualmente um mercado que cresce bastante é o de assessoria de comunicação, na medida em que empresas, instituições e até profissionais precisam se comunicar com seus públicos. Uma área que ainda está, pode-se dizer, em seus primeiros passos, mas que tende a ser um mercado bastante promissor é o da internet, com sites e portais de notícias, blogs, enfim. As mídias digitais têm um mercado aberto e o jornalista que tiver uma boa ideia e for criativo pode abrir um campo bem interessante de trabalho.
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